29-out-97, Edição 1519
http://www2.uol.com.br/veja/291097/p_106.html



 

Fábula virtual

De como o louco amor entre uma coelhinha
e um lobo terminou em caso de polícia

Flávia Varella, de Campo Grande

Carla, a coelhinha:
"Ter um homem
assim era demais"
Foto: Ana Araujo

Era uma vez uma coelhinha internauta. Ela queria conhecer pessoas e fazer amigos na rede. Acabou caindo nas malhas do lobo mau. No início da semana passada, Carla Patrícia Coelho, que usa o apelido de "Coelhinha" na Internet, e Flávio de Oliveira e Silva, o "Lobo", trocaram o litoral encantado do Nordeste, onde passearam durante vinte dias, entre paixões noturnas e românticas voltinhas de mãos dadas à luz do sol, por uma delegacia de Teresina, no Piauí. A Coelhinha passou a noite numa rede estendida na sala dos investigadores. O Lobo, na cela, acuado como um cordeirinho. Indiciado por estelionato e furto, Silva foi solto cinco dias mais tarde, depois de pagar fiança de 500 reais. Carla voltou para a toca familiar aos prantos, com o coração partido e uma dívida de mais de 10.000 reais.

O arquivo da enganação: fazenda, avião e fotomontagem do casal com ela 20 quilos mais magra

Carla, de 29 anos, e Silva, de 35, conheceram-se em 20 de setembro, pelo computador. Em dez dias, conversaram durante oitenta horas. "Ela chegava por volta das 9 e meia da noite e ficávamos até de madrugada", lembra Silva. "Fizemos até sexo virtual", conta Carla. A Coelhinha saltitava de alegria diante da lábia sedutora do Lobo matreiro. Ele falou que era um rico fazendeiro de Goiânia, que fazia inseminação artificial em gado nelore, participava de rodeios nacionais e internacionais, tinha um jatinho particular e vários carros importados. Os dois trocavam confissões, poesias, cartões musicados e fotos. A mãe de Carla, Maria Concepción, às vezes entrava no diálogo. "Era o genro que eu pedi a Deus, rico, romântico, gentil e inteligente", diz a sogra virtual. Eles não demoraram a marcar casamento. Seria numa fazenda, sob uma tenda branca e com tapete vermelho, conforme antigo sonho da noiva, mas ainda mais deslumbrante, já que Leonardo, da dupla sertaneja, amigo do Lobo, oferecera seu sítio para o evento.

Fotos do álbum de
viagem: a alegria na praia e os gastos no shopping center resultaram numa dívida de 10.000 reais

A mentira era deslavada. Silva, desempregado, vive à custa do pai, um professor universitário aposentado, em uma casa de classe média, num bairro afastado de Goiânia. Carla também entrou com sua cota, mais modesta: não é aquela beleza de 60 quilos distribuídos em um corpo de 1,80 metro como aparecia nas fotos antigas que mandava para o companheiro. Está 20 quilos mais gorda. Enquanto não desmoronou, a farsa foi uma maravilha. A família Coelho toda acreditava na história do genro ideal, confirmada por fotos da fazenda e do avião reluzindo na tela do computador. "Carla estava havia cinco anos sem ninguém, louca para casar, e tinha encontrado o homem perfeito", explica a mãe. A moça delirava com a idéia de largar seu emprego numa loja de tintas, em Campo Grande, onde fazia mistura de cores num computador, com salário de 300 reais por mês.

Sobrinho de Caiado -- Um dia, Lobo pediu a Coelhinha que comprasse passagens aéreas para se encontrarem pessoalmente em Goiânia, antes de seguirem em férias românticas para Fortaleza. Ela sentiu um frio na barriga ao assinar o cheque de 1.500 reais. Foi em frente, porém, crente que logo seria ressarcida por ele. Ela providenciou até calças e camisetas novas e uma cueca de seda italiana, de acordo com pedido expresso do fazendeiro sem tempo a perder com compras. Ele estava muito atarefado, vacinando e marcando as 2.400 cabeças de gado que tinha comprado para Carla, junto com um jipe Cherokee e uma fazenda de 2.500 alqueires, como presentes de casamento. Cada boi estava recebendo a marca de três letras C, homenagem à futura Carla Coelho Caiado. Sim, porque o milionário de araque dizia chamar-se Flávio Carlos Caiado e Silva, sobrinho de Ronaldo Caiado, conhecido pecuarista.

Doze dias depois do primeiro contato, Carla embarcava na tão desejada vida de madame. Estava satisfeitíssima com a paisagem, as mordomias do hotel cinco-estrelas, o carinho, o papo e o desempenho sexual do futuro marido. Tiraram até fotos fazendo amor. "Ele era um amante profissional. Eu rezava todos os dias agradecendo. Ter um homem assim era demais", suspira a Coelhinha. Era tamanha a felicidade que largou o antidepressivo que tomava havia cinco anos, desde que sofreu um acidente de carro e foi traída pelo namorado -- "fazendeiro e muito rico" -- com sua melhor amiga.

Tudo tão lindo... Ela teve até pena do amante profissional quando este contou, compungido, que havia perdido na véspera da viagem todos os seus talões de cheques e cartões de crédito. Depois de quase uma semana de viagem, quando Carla já estava ficando preocupada com dinheiro, Lobo garantiu-lhe que seu procurador havia sido instruído a depositar uma soma na conta dela. No dia seguinte, alegou estar passando mal e foi sozinho a uma farmácia tomar injeção. Voltou com um pedaço de esparadrapo no ombro e outro no meio do braço. Assim que entrou no quarto, sugeriu a Coelhinha que ligasse para o banco, para checar se um depósito de 10.000 reais havia entrado na conta dela. A resposta foi positiva. Seguiram, então, para o shopping, onde compraram roupas novas para comemorar o aniversário de Carla.

"Mundo só nosso" -- À noite, no restaurante, pediram champanhe. Ele queria da marca Cristal, mas tiveram de se contentar com um Moët & Chandon. Nesse momento, um Lobo solene disse que pretendia mudar os planos da viagem. Alugariam um carro para conhecer praias mais distantes. A partir de então, ele não queria mais que ela telefonasse para a família. "Você agora é minha mulher. Viveremos num mundo só nosso", teria dito, segundo conta a moça. Ela não quis aceitar, discutiram, mas acabou convencida sob o argumento de que o amante ligaria todos os dias para seu procurador "Antônio Carlos", encarregado de manter os pais dela informados. Partiram, deixando bagagens e levando a chave do quarto do hotel. Não pagaram a conta. "Ele me disse que voltaríamos para devolver o carro e pagar tudo", diz Carla.

Em Campo Grande, Concepción esperava receber um telefonema da filha no dia de seu aniversário, mas quando o telefone tocou era do banco perguntando se podia autorizar a compensação de um cheque de 10 000 reais dado por Carla. A mãe disse que não e passou a ligar em vão para o hotel em Fortaleza. Depois de muito insistir, convenceu o gerente a abrir o quarto. Entrou em pânico quando soube que estava tudo largado lá, inclusive os remédios da filha. "Ela não vive sem eles", desesperou-se, esperando pelo pior. Como a filha não dava sinal de vida, Concepción pediu ajuda à polícia. Começava ali uma busca que envolveria as polícias de quatro Estados. Apareceram cheques sem fundo e a locadora do carro deu queixa de roubo. Enquanto isso, Lobo e Coelhinha passeavam e se amavam. Foram encontrados numa pousada em Teresina.

Carla conta que só percebeu que estava sendo enganada quando o delegado mostrou uma folha de cheque em branco e perguntou se era dela. A moça olhou o talonário do Banco Real e viu que faltavam duas folhas de cheque, arrancadas do meio. Uma tinha sido usada para o depósito de 10.000 reais. Carla não tinha reparado, porque usava um talão de outro banco. Silva confessou que havia roubado o cheque enquanto a moça dormia, falsificado a assinatura e feito o depósito. Assinou um depoimento inocentando Carla de qualquer culpa. Durante uma das dezenas de entrevistas que deu em Teresina, Carla descreveu: "Fui a mulher mais amada e mais enganada". Na delegacia, encontrou na mala dele um rolo de esparadrapo. "No dia da injeção, ele fez o depósito", concluiu. "Como fui idiota."

Cueca de seda -- Solto na última quinta-feira, Silva negou o que havia dito à polícia. "Tudo o que aconteceu foi de comum acordo. Assinei aquele depoimento para resolver a situação mais rápido e também para protegê-la", disse a VEJA. Ele afirma que nunca mentiu sobre ser fazendeiro. Mas Loran Philippe Michel, dono de uma pousada onde o casal ficou quatro dias, conta que passou horas ouvindo o rapaz falar sobre suas fazendas e inseminação de gado. "Ele me enganou direitinho", admite. Os delegados envolvidos no caso não acreditam na nova versão de Silva. "Ela foi persuadida virtual e materialmente", garante Luiz Carlos Dantas, da Polícia Interestadual de Fortaleza. "Não acho que alguém saia por aí emitindo seus próprios cheques sabendo que não têm fundo", afirma Vilma Angelo da Silva, delegada em Campo Grande. No total, foram 38 cheques no valor de 6.200 reais, mais despesas no cartão de crédito e com advogados.

Carente de afeto e ambiciosa, Carla foi a presa ideal. Qual mulher resistiria a um homem que, informado dos 20 quilos a mais de sua amada a distância, diz que tudo bem, o importante é a beleza interior? Flávio Silva, com suas mentiras megalômanas, provavelmente viu nisso a chance de uma doida aventura. Ele como Lobo, ela como Coelhinha. Mas como diz La Fontaine em uma de suas fábulas: "Este caso, além do exposto, serve também de lição a todos os que procuram parecer mais do que são". Para Lobo fica uma acusação criminal a ser esclarecida. Para Coelhinha sobrou a tal cueca de seda italiana que ela fez questão de guardar.

Qualquer coisa por amor

Quando conheceu o milionário Richard McNutt, em 1994, durante um jantar na casa de amigos, a enfermeira americana Dorothy Zauhar pensou ter tirado a sorte grande. Seis meses de namoro foram suficientes para que ela fosse presenteada com um anel de brilhante, acompanhado de um pedido de casamento. A felicidade parecia completa, não fosse um detalhe: McNutt sofria de insuficiência renal, que o obrigava a três sessões semanais de hemodiálise. A única solução seria um transplante. Aos 56 anos, Dorothy não é nenhuma Carla Marins no papel de Dinorah na novela A Indomada, mas faria qualquer coisa por amor. Os médicos vetaram a doação porque ela tinha predisposição a coágulos sanguíneos. Determinada, Dorothy convenceu o irmão a praticar ato tão nobre. Em troca, o milionário pagaria 5.000 dólares para cobrir o período de recuperação do doador e lhe faria um seguro de vida. O presentão livrou McNutt da fila de 37500 americanos que esperam por um rim novo.

O sucesso da cirurgia, realizada um mês antes da data acertada do casamento, acabaria colocando um ponto final nos sonhos da enfermeira. Dorothy foi abandonada pelo milionário, que há quatro meses se casou com uma mulher catorze anos mais nova que ela. Seu irmão nada recebeu do prometido. Inconformada, ela está pedindo na Justiça indenização de 150.000 dólares porque acha que foi vítima de um crime de roubo de órgão. "Havia um acordo sobre o casamento", diz. "Meu irmão aceitou fazer a doação porque isso transformaria minha vida." McNutt mandou dizer por intermédio de seu advogado que nunca pensou em praticar um golpe. Acha apenas que recebeu um presente de um amigo generoso.

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